Servido em 01.03.12 | 12:11
Reinaldo Paes Barreto
Toda cidade tropical à beira-mar é sensual, mágica, meio solta. Gulosa. E o Rio é assim. Mas também, pudera: porto de entrada de aventureiros e nobres, síntese dos mil brasís que vieram somar-se aos tamoios do Morro Cara de Cão que por aqui circulavam, a cidade fez-se metrópole lambida pelo Atlântico, untada pelo azeite do português, ardendo em pimenta africana.
Deu no que deu: dessa fabulosa sinergia, nasceu uma cozinha variada, colorida, feita no início da vitória sobre a escassez e da permanente criatividade com a qual o que sobrava na mesa do branco era reorganizado na mesa do negro com a maquiagem colhida da terra: uma colherada de feijão em cima, uma mancheia de farinha, o ôco de uma banana d”água...
Mas o Rio-Colônia virou Rio-Capital, e então, em vez das paneladas, comia-se arroz com camarão, além de carneiros, porcos, perus, carne de vaca, tudo isso acompanhado de muita cebola, verduras e raízes. De sobremesa, doce-de-arroz, queijo de Minas, compotas, marmeladas e fruta, muita fruta. Tanto que à noite, na clássica trilogia --- colégio, convento, caserna --- servia-se uma sopa de caju gelado, à guisa de ceia. Depois, em 1834, um navio americano vindo de chegou ao porto do Rio trazendo a grande novidade: sorvete. No princípio não fez o sucesso esperado --- “queima a língua” --- diziam. Aí alguém teve a idéia de misturá-lo com groselha e suco de frutas. Emplacou!
Mas o Rio-Gourmet nasceu um pouco mais tarde, por volta de 1861, quando o incansável Barão de Mauá instalou no Rio a primeira Fábrica de Gaz, oferecendo uma alternativa à lenha. Aí tiveram início as noitadas gastronômicas, regadas à cerveja preta portuguesa, vinho do Porto, vermute e licores franceses.
A seguir veio o champagne e o Rio iniciou um período "afrancesado", influência que reinou absoluta por mais de cem anos; foi com o "susto da Revolução dos Cravos" em Portugal, depois de 1974 é que vieram os portugueses sofisticados “consertar” a imagem de que na terrinha só se come de sardinha, chouriço, bacalhau e vinho verde. A seguir, uma geração de italianos chegou ao Rio e a São Paulo igualmente disposta a mostrar que a mesa do velho Lácio não é feita só de mascarpone, macarrão, azeitona e pizzas.
Na sequência, declina, um pouco a influência da cozinha francesa, muito por conta do equívoco que foi a chamada "nouvelle cuisine" (pratão e pouca comidinha...) e os brasileiros aproveitaram o vácuo e reagiram, valorizando os grandes pratos nacionais. Aí a globalização soltou as rédeas e os japoneses desembarcaram com os seus sushis e sashimis e o resultado é que o Rio é, hoje, em matéria de restaurantes, uma babel bem sucedida!
Às vezes um pouco irregular , às vezes um pouco barulhenta demais, mas sobretudo instigante, criativa --- pós-moderna. Sem deixar de ser plural, generosamente curva: como as montanhas, como as mulheres...
COMENTÁRIOS
Postado Por REINALDO PAES BARRETO
01.03.2012 | 22:41
Grande Alexandre (ou Alexandre - O Grande!) a sua ilustracao eh fenomenal: o texto cresceu "horrores" com este Cristo abencoando os nossos pes-sujos e pes-limpos! Parabens.
Postado Por REINALDO PAES BARRETO
01.03.2012 | 22:41
Grande Alexandre (ou Alexandre - O Grande!) a sua ilustracao eh fenomenal: o texto cresceu "horrores" com este Cristo abencoando os nossos pes-sujos e pes-limpos! Parabens.
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